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quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Evo Morales e a derrota de todas as direitas


Para o reacionarismo nativo, as imagens do presidente Morales comemorando a vitória no Palácio Quemado devem ficar retidas na memória como um caminho sem volta. Muito mais do que aprovação a um governo, expressam um desejo de avanço só possível com uma América Latina integrada.

E, ao contrário do que sonhavam as elites brancas dos departamentos autonomistas, "Evo não se foi". Ao passar com folga no referendo em que submeteu seu mandato à vontade popular, o presidente boliviano infligiu uma dura derrota a velhos atores políticos cujo raio de ação ultrapassa em muito o solo boliviano.

A vitória do índio aymara que restituiu ao país andino o controle sobre recursos naturais que, antes da onda liberalizante, eram explorados pela Yaciamientos Petrolíferos Fiscales de Bolívia (YPFB), empresa que foi retalhada e vendida a cerca de 20 multinacionais de petróleo, demonstra que o povo do Altiplano aprendeu que sua cultura é uma forma intensa e superior de fazer política. Uma práxis tão rica quanto vitoriosa.

Como já tivemos oportunidade de destacar, em outros artigos, a renegociação dos acordos deu ao povo boliviano duas certezas: o acerto da decisão de Morales e o respeito internacional, nunca obtido quando governavam as elites brancas dos departamentos ricos.

Na última semana de novembro de 2006 mais de cinco mil indígenas marcharam em direção a La Paz para exigir que o Senado, dominado pela oposição, aprovasse um projeto de reforma agrária.

Eram novos atores que vieram para ficar. Não deixariam o palco após molecular acúmulo de capital político. Passados quase dois anos, nesse 10 de agosto de 2008, ratificam seu protagonismo, e exigem o desenvolvimento institucional do país, só possível através de uma refundação jurídico-politica iniciada com a convocação da Assembléia Nacional Constituinte.

Mas há outros derrotados além da elite branca de Sucre e outros departamentos. No Equador, certamente, há choro em Guaiaquil, bastião da direita que vai às ruas protestar contra as reformas com as quais o presidente Rafael Correa pretende regular a economia e terminar com uma década de instabilidade política.

O resultado da consulta na Bolívia também cai como uma bomba nos planos da oposição venezuelana. Para quem pretendia aproveitar as próximas eleições regionais ,em novembro, para intensificar o golpismo e o separatismo, o lembrete boliviano deve ser bem assimilado. As oligarquias de Zulia, Táchira, Barinas e Apures, entre outros Estados, devem ter aprendido um pouco mais que já não é tão simples desestabilizar governos legítimos, democraticamente eleitos.

Na Argentina, a chamada “Mesa de Enlace", que reúne as quatro principais agremiações ruralistas argentinas, precisa descartar velhas estratégias. Se, ao longo dos últimos meses, emergiram fragilidades estruturais que apresentam um país dependente do campo tanto interna quanto externamente, isso está longe da reprodução de cenários que, ao longo do século passado, possibilitaram golpes e conspirações bem-sucedidas.

Ao afirmar que dará prosseguimento à nacionalização de setores estratégicos, Morales aponta para o final de um ciclo de transferências maciças de ativos do Estado para os mercados que marcou a América Latina desde os anos 1990. É o resgate da política como única ferramenta de transformação.

A direita boliviana, bem como a de toda região, deve-se afirmar dentro de regras democráticas, não mais confundindo o poder que lhe foi dado por votação, como cheque em branco para a sabotagem institucional. O confronto deve ceder lugar a uma estratégia de competição de políticas públicas.

Para o reacionarismo nativo, as imagens do presidente Morales comemorando a vitória no Palácio Quemado devem ficar retidas na memória como um caminho sem volta. Muito mais do que aprovação a um governo, expressam um desejo de avanço só possível com uma América Latina integrada. Algo que não está no horizonte de “comitês cívicos" de Tarija, Caracas ou seus congêneres embrionários em terras brasileiras.


Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Observatório da Imprensa.

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